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Caminho Português de Santiago – Dia 3: Porriño – Santiago de Compostela

O Albergue de Peregrinos de Porriño tinha as condições mais que necessárias para um bom descanso, mas isso não se verificou. O ciclista português que pernoitou no beliche do lado dormiu muito bem, mas foi o único. Não se pode dizer que ele ressonava – ele roncava e com um nível bem considerável de décibeis. Foi uma noite complicada para todos (menos um), mas o dia prometia ser longo e, por isso, o melhor era arrancar bem cedo. Assim o fizemos e as primeiras pedaladas do dia foram dadas com temperaturas bem baixas, que se deixaram de sentir quando o relevo começou a fazer-se notar – o que não demorou nada. De Porriño a Redondela as subidas sucediam-se e algumas não eram nada meigas.

caminho_santiago_2010_canicouva.JPGAntes da chegada à “metrópole” Pontevedra, ainda existem alguns locais dignos de destaque. A pequena localidade de Pontesampaio impressiona logo à entrada. A ponte romana sobre o rio Verdugo é um belíssimo postal e o emaranhado de ruas pelo interior do povoado, onde se sucedem rampas com desníveis incríveis, são aspectos marcantes desta passagem. Pouco depois, após uma incursão por entre campos e montes, surge mais um dos monumentos emblemáticos do Caminho: a Calçada Romana de Canicouva. Mais uma enorme dificuldade para quem segue, ou tenta seguir, sobre duas rodas. A aproximação a Pontevedra leva o caminho e percorrer algumas estradas municipais e nota-se o movimento de uma grande cidade, não só pelo acréscimo de trânsito, mas também na dificuldade em descortinar as omnipresentes setas amarelas.

CS2010_Pontevedra1.JPGÀ saída de Pontevedra aproveitámos para um pequeno lanche e planear o resto do dia. Concluímos que se o ritmo se mantivesse assim, era perfeitamente normal chegar a Santiago nesse dia, a horas bem razoáveis. Nesta fase, o Caminho atravessava alguns bosques e cruzava pequenos ribeiros, não existindo dificuldades muito acentuadas em termos de relevo. Pouco depois do meio-dia chegávamos a Caldas de Reis, onde parámos mais demoradamente para almoçar. Nesta localidade já se sentia a proximidade de Santiago. O número de peregrinos ia aumentando à medida que íamos progredindo, mas aqui notou-se mais claramente. Pouco depois do almoço havia uma enorme fila à entrada do albergue local. Como tencionávamos terminar nesse dia, seguímos caminho. Mais umas pedaladas e mais uma mudança de cenário. Agora eram as vinhas a ladear o Caminho. Pequenos carreiros por entre vinhas que começavam a amadurecer trouxeram novos cenários e aromas ao percurso. O momento mais agradável do dia veio logo de seguida, quando fomos surpreendidos por um espectacular single-track, com um excelente piso, sob um arvoredo refrescante, feito a grande velocidade. No final parámos e foi por pouco que não voltámos atrás para repetir.

CS2010_Pontevedra.JPGA última paragem desta longa etapa – cerca de 100 kms – seria em Padron (terra dos pimentos). Uma pausa para um gelado e ganhar força para o final. Um pouco antes, o meu pneu traseiro, que já vinha perdendo algum ar desde o início, começou a fazer-se notar. Primeiro apareceu um “abcesso” que depois de “lancetado” permitiu continuar até encontrar um posto de abastecimento de combustível onde foi bem enchido (demais até!). Com o excesso de pressão, o pneu ganhou um novo inchaço que rebentou e fez com que o pneu perdesse ar ainda mais rapidamente. Assim, no fim do gelado, o pneu estava completamente vazio. Foi enchido manualmente e deu para andar apenas mais uns metros. Numa fonte, junto ao mosteiro de A Esclavitude, improvisámos um pouco e trocámos as rodas traseiras, para ver se, com menos carga, o pneu aguentava até Santiago. Não resultou e, a cerca de quinze quilómetros do destino, tínhamos um problema sério a resolver.

caminho_santiago_2010_obradoiro.JPGCom a meta à vista, arranquei com a carga rumo ao Obradoiro e o Miguel faria os quilómetros finais a pé. Este infortúnio tornou o final de um dia, que até aí tinha sido fantástico, num verdadeiro suplício. Ao fim da tarde, já depois de, sem sucesso, ter procurado dormida em Compostela, procurámos uma solução para descansar ao fim de tão longo dia. Já caía a noite quando chegamos ao albergue do Monte do Gozo e, após mais uma série de peripécias, lá conseguimos encontrar um colchão e relaxar um pouco o corpo fatigado. Desta vez sempre deu para descansar um pouco mais. O cansaço era maior e o “roncatório” era (um pouco) menor. Com tantos momentos a marcar uma longa aventura, esta jamais será esquecida. E, possivelmente, quando as recordações já não forem tão fortes, será algo a repetir. É só juntar um pouco de coragem e loucura e meter novamente os pés ao Caminho. Talvez a próxima seja mesmo assim, apenas com os pés ao caminho. A ver vamos…

Caminho Português de Santiago – Dia 2: Carapeços – Porriño

Ponte de LimaO amanhecer prometia um belo dia de Verão e a etapa-rainha do Caminho Português esperava-nos! No dia anterior tinha sido um prólogo apenas para verificar o estado das pernas e da máquina. Agora começava o caminho a sério! E para começar bem, o melhor era começar cedo. Assim, às 7h já estávamos prontos para partir, desta vez em duo e bem carregados. Arrancámos em bom ritmo e, cerca de uma hora depois, estávamos a entrar em Ponte de Lima através da magnífica Avenida dos Plátanos. Apesar de ter muito para ver, como já conhecíamos bem a vila, não parámos muito tempo. Só o necessário para as habituais fotos e para encher o meu pneu traseiro que teimava em perder ar.

A passagem do rio Lima marca a entrada na parte mais interessante e mais dura do Caminho Português. Logo após a saída da vila o percurso começa a ser feito alternadamente em estradas secundárias, praticamente sem movimento de veículos, em caminhos rurais e em carreiros estreitos. Nesta fase do percurso notou-se uma grande diferença para as anteriores: o número de peregrinos era notoriamente superior. Grande parte deles opta por iniciar o seu caminho em Ponte de Lima. Esta presença mais assídua de caminhantes no percurso permitiu destacar a importância da aquisição mais importante para esta viagem: a campainha! Constantemente usada para alertar os peregrinos da nossa aproximação, este pequeno instrumento foi de uma utilidade extrema pelo tempo e esforços desnecessários que nos poupou.

Labruja - RubiãesOs quilómetros iam-se acumulando e a aproximação à mítica subida da Labruja fazia crescer o entusiasmo. Para abordar convenientemente esta dificuldade, fizemos uma pequena pausa antes da subida para descansar um pouco as pernas e recuperar algumas energias. A partir dessa paragem foi pedalar um pouco e carregar (muito) a bicicleta. As subidas sucedem-se e, se as primeiras são difíceis, as seguintes são cada vez piores. São muito íngremes e com um piso muito irregular. Se para quem caminha são complicadas, para quem carrega a bicicleta são quase brutais. Para minha sorte, alguém perdeu os óculos pelo caminho e não estava com muita vontade de os recuperar. Eu voluntariei-me para os procurar e com isso ganhei o direito a fazer a subida duas vezes (mas muito mais leve, pela troca de bicicletas). Terminada a subida, foi tempo de recuperar o fôlego e iniciar uma fantástica descida até Rubiães. Decididamente, esta é a parte mais marcante do percurso, tanto pela dureza da subida como pela espectacularidade da descida. A bárbara agressão de que fui alvo por parte de uma pedra pouco satisfeita por ter sido atropelada, foi o preço a pagar por tanto entretenimento.

Rio Minho - Valença - TuiUltrapassada a maior dificuldade do dia, era altura de uma nova pausa, desta vez maior, para o almoço. Um pequeno restaurante já na chegada a Valença foi a escolha para o efeito. Depois de reconfortado o estômago, arrancámos novamente e pouco depois já estávamos em solo espanhol. A travessia da ponte sobre o rio Minho é outro dos pontos de destaque, pelo seu simbolismo e pelas vistas que proporciona, quer de Valença, quer de Tui. Já no lado “estrangeiro”, somos surpreendidos com uma sucessão inesperada de rampas e escadarias dentro do centro histórico de Tui. A partir de Tui, o relevo deu-nos algum descanso, sendo o percurso maioritariamente plano, com partes muito agradáveis, cruzando pequenos rios através de caminhos serpenteantes no interior de bosques de uma agradável frescura e beleza. Também há partes menos interessantes, como as monótonas e intermináveis rectas do Polígono Industrial de Porriño.

CS2010_Tui2.JPGChegados a Porriño fizemos mais uma pequena pausa para fotos e descanso e ainda para planear o resto do dia. Já passava do meio da tarde e tínhamos de decidir onde terminaríamos o dia. Os planos apontavam para Redondela para as etapas ficarem equilibradas em termos de distância. No entanto, no albergue de Porriño fomos informados da escassez de vagas em Redondela. Como o albergue nos pareceu agradável e ainda tinha muitas vagas, optámos por este para pernoitar. Assim, depois de um grande dia de viagem, um banho refrescante e um delicioso jantar, era tempo de recolher aos dormitórios e descansar o máximo. O dia seguinte não aparentava ser mais fácil que este.

Caminho Português de Santiago – Dia 1: Porto – Carapeços

caminho_santiago_2010_007.JPGO dia começou com a viagem de carro para o Porto, onde chegamos por volta das 9:30. Depois de montar a bicicleta e arrancar em direcção à Sé Catedral, foi feito o necessário carimbo das credenciais. Após as fotos da praxe, para documentar a partida, teve então início a aventura rumo a Santiago. Os primeiros metros são assustadores para quem o faz sobre duas rodas. Uma sucessão de descidas vertiginosas, por entre ruas estritas com muitos degraus pelo meio, requerem grande atenção e alguma perícia. Como normalmente acontece nestes casos, a uma grande descida segue-se uma custosa subida, aqui agravada pelos peões e veículos que fazem uso regular da vias labirínticas do centro histórico da cidade. Antes de deixar a Invicta para trás, ainda figuram no roteiro mais alguns monumentos de relevo, destacando-se naturalmente a Torre dos Clérigos.

Após uma parte inicial animada pelas ruas e monumentos portuenses, o percurso torna-se menos interessante. As setas amarelas surgem a bom ritmo mas, devido ao carácter urbano do percurso, estão muitas vezes ocultadas por veículos ou outros objectos. Esta busca pelas setas orientadoras e o grande fluxo de trânsito típico dos arredores de uma grande cidade tornam este segmento do percurso no menos interessante do todo o caminho. Até passar Vilarinho, já perto de Vila do Conde, anda-se sempre em estradas, maioritariamente secundárias, mas relativamente movimentadas. Até chegar a Rates o cenário não se altera muito e, por isso, esta parte faz-se num curto espaço de tempo. Na vila de Rates já se justifica uma paragem mais demorada para apreciar o histórico e bem conservado casco urbano e até para uma visita ao Albergue de Peregrinos. À saída desta localidade atravessa-se pela primeira vez uma boa extensão de caminho rural por entre montes e terras de cultivo e fica-se com uma ideia do que será o caminho daqui em diante. Assim se chega até Pedra Furada, onde se volta a recorrer a estradas secundárias para chegar até Barcelos.

BarcelosA chegada a Barcelos é um dos pontos marcantes do Caminho. A entrada pela Ponte Medieval e o conjunto de monumentos que se segue, incluindo a Igreja Matriz e o Paço dos Duques, bem como o centro da cidade, convidam a uma paragem mais demorada, que até pode ser aproveitada para almoçar. Dado que já conhecia bem o local, e como não estava longe de casa, optei por seguir caminho e almoçar em casa. Antes ainda segui pelo Caminho até à Casa da Recoleta (o novíssimo albergue de peregrinos, em Tamel S. Pedro Fins). Esta última parte, feita novamente por caminhos em terra, quase sempre a subir, foi a parte mais dura do primeiro dia, mas nada de muito relevante.

Assim estava concluída a primeira etapa, sem grande esforço, até porque os alforges ficaram em casa e só seriam usados a partir do segundo dia. Nesta etapa não deu para sentir muito o espírito do Caminho pelo reduzido número de peregrinos com que me cruzei, o que também teve a ver com a extensão mais curta da mesma e o pouco tempo que demorou a realizar. Foi uma espécie de aquecimento para as duras etapas dos dias seguintes.

Caminho Português de Santiago – 2010

O regresso aos Caminhos de Santiago foi feito onde tudo começou há quatro anos atrás: no Caminho Português de Santiago. Porém, desta vez o percurso foi um pouco mais extenso. Em vez de começar bem perto de casa, optei pelo Porto para iní­cio da jornada. Junto à  Sé Catedral do Porto arranquei para uma longa aventura que ultrapassou os 250 kms. Para mim era a terceira experiência do género, mas com várias diferenças para as anteriores. As mais notórias foram a companhia – em vez do Nélson, foi o Miguel – e a companheira – a Withney foi substituída pela Trek. Apesar de algumas peripécias e imprevistos, o balanço final é bastante positivo e já se esboçam planos para novos empreendimentos do mesmo tipo.

Caminho de Santiago 2010Dado que a primeira vez que fiz o Caminho não tinha sido muito longínqua, ainda me recordava razoavelmente bem do percurso, em particular de alguns sítios e localidades mais interessantes. O trajecto principal mantém-se apenas com algumas ligeiras variações no percurso, sendo as mais notórias ao nível do piso. Alguns troços que antes eram em terra ou em empedrados muito irregulares foram repavimentados em alcatrão ou cimento, diminuindo consideravelmente o ní­vel de dificuldade dessas partes. O percurso é feito maioritariamente em caminhos rurais e estradas secundárias, sendo pouco frequente encontrar outros veículos em pleno percurso, à  excepção das passagens pelas localidades. Relativamente às edições anteriores verificou-se uma pequena mas valiosíssima inovação: uma campainha. A utilização deste pequeno acessório poupou-nos muito tempo e muitos esforços quando era necessário avisar os peregrinos da nossa aproximação e passagem.

O Caminho Português continua a apresentar excelente sinalização, sendo praticamente impossí­vel alguém se perder. As únicas excepções a esta regra são as passagens por algumas localidades espanholas de maior dimensão, onde as setas amarelas se encontram menos expostas ou obstruídas por outros elementos. O percurso completo foi realizado em três etapas, sendo esta distribuição a ideal. Contudo, é possí­vel efectuá-lo num par de dias, embora neste caso não se possa usufruir do muito que o Caminho nos oferece.

Caminho Português de Santiago – Dia 1: Porto – Carapeços

Caminho Português de Santiago – Dia 2: Carapeços – Porriño

Caminho Português de Santiago – Dia 3: Porriño – Santiago de Compostela

Caminho Francês de Santiago – Resumo

Em jeito de balanço, fica aqui um resumo da grande aventura que realizámos durante a semana da Páscoa, percorrendo o Caminho Francês de Santiago, superando várias dificuldades e o cansaço de tão longa jornada.

 

Castrojeriz

Prólogo: 3 de Abril de 2007

Burgos – Castrojeriz
Distância: 43 Kms
Duração: 2:00
Locais de interesse: Burgos, Rabe de las Calzadas, Ruínas de S. Miguel, Catrojeriz

 

Planícies de Castela

1ª Etapa: 4 de Abril de 2007

Castrojeriz – León
Distância:
143 Kms
Duração: 8:00
Locais de interesse: Fromista, Carrión de los Condes, Sahagún, Mansilla de las Mulas, León

 

Palacio Gaudi - Astorga2ª Etapa: 5 de Abril de 2007

León – Villafranca del Briezo
Distância:
135 Kms
Duração: 7:30
Locais de interesse: Hospital de Órbigo, Astorga, Rabanal del Camino, Foncebadón, Cruz de Ferro, Molinaseca, Ponferrada, Villafranca del Briezo

 

O Cebreiro3ª Etapa: 6 de Abril de 2007

Villafranca del Briezo – Portomarín
Distância:
94 Kms
Duração: 7:00
Locais de interesse: O Cebreiro, Triacastela, Sarria, Portomarín

 

Santiago de Compostela4ª Etapa: 7 de Abril de 2007

Portomarín – Santiago de Compostela
Distância:
92 Kms
Duração: 6:00
Locais de interesse: Palas de Rei, Melide, Arzua, Monte do Gozo, Santiago de Compostela

 

Tuy5ª Etapa: 8 de Abril de 2007

Santiago de Compostela РCarape̤os
Distância:
182 Kms
Duração: 9:00
Locais de interesse: Pontevedra, Tuy, Valença, Ponte de Lima

 

No total, foram percorridos cerca de 700 kms, passando por todo o tipo de terrenos, desde caminhos com muita lama, pedras e neve, até excelentes vias rápidas. Passámos cerca de 40 horas a pedalar, realizando médias a rondar os 18 kms/h. Em termos de avarias, as bicicletas portaram-se impecavelmente já que não foi registada qualquer avaria. Nós também não nos portámos muito mal, pois também não houve nenhuma queda, nem sequer enganos no percurso – a experiência começa a notar-se! Resumindo, apesar das dificuldades com que nos deparámos, era difícil que esta aventura tivesse corrido melhor. Foi uma enorme aventura que vai deixar saudades e que já abriu perspectivas para outras.

Caminho Franc̻s de Santiago РDia 5: Santiago de Compostela РCarape̤os

Santiago de Compostela
Após uma longa viagem pelo Norte de Espanha, faltavam ainda muitos quilómetros para chegarmos a casa. Esse era o objectivo da última etapa. Esta seria a etapa mais longa, mas tinha atenuantes: seria feita inteiramente por estrada e já conhecíamos o percurso. Como habitualmente, o dia começou bem cedo e com temperaturas baixas, apesar das perspectivas de um dia solarengo. Deixámos Santiago por volta das 8 horas da manhã e seguímos em bom ritmo até Pontevedra, onde efectuámos a primeira paragem para um pequeno lanche, por volta das 11 horas. A boa média que realizámos ainda sai mais reforçada se tivermos em conta que o Nélson só podia fazer força num dos pedais, já que tinha o pé esquerdo imobilizado.

TuyDepois da paragem em Pontevedra, o ritmo não diminuiu. As estradas estavam em boas condições e apenas a grande concentração de automóveis em algumas localidades nos atrasou um pouco. Um desses sítios foi Padrón, onde se realizava uma feira de grande tradição. Nesta fase do percurso passámos por vários ciclistas domingueiros e alguns carros. Nem se notava que era Domingo de Páscoa! Pouco depois, começamos a ver algumas placas a indicar "Portugal". Entretanto chegámos a Porrino onde entrámos na via rápida, onde seguimos em grande velocidade até Tuy. Foram cerca de 30 kms em menos de uma hora e assim chegámos bem perto da fronteira luso-galaica. Parámos num pequeno relvado à saída de Tuy e aí almoçamos calmamente, pois os planos estavam a ser inteiramente cumpridos. O sítio era tão aprazível que custou bastante deixá-lo e voltar ao selim.

Esmaltina em casaPor volta das duas da tarde cruzámos o Rio Minho e entrámos em Valença. Depois de cruzar a fronteira começamos logo a sentir a diferença de comportamento dos condutores relativamente aos ciclistas. Os nossos hermanos demonstraram sempre um elevado nível de civismo e cuidado com os ciclistas. Este foi apenas um dos aspectos que piorou ao pedalar por Portugal. O outro foi o tempo. Depois de uma manhã solarenga, a tarde trouxe o frio e também a chuva. Pouco depois de passar Valença começou a chover e, até Ponte de Lima, a intensidade da chuva foi-se agravando. A chuva só parou quando já estávamos a chegar a casa, mas, apesar de nos ter deixado mais uma vez completamente encharcados, a chuva teve um aspecto positivo: a minha bicicleta já fazia ruídos por todo o lado e, de repente, tornou-se silenciosa e já parecia nova. Por volta das cinco da tarde chegámos a casa e concluímos mais uma grande aventura sobre duas rodas. Já existem planos para novos empreendimentos do género, a realizar brevemente.

Caminho Francês de Santiago – Dia 4: Portomarín – Santiago de Compostela

Pedalando pela Galiza
A proximidade de Santiago era mais um factor motivador para esta etapa. Com uma extensão ligeiramente inferior a 100 kms, esta ligação entre Portomarín e Santiago caracterizava-se pelas constantes subidas e descidas do percurso, marcado por vários bosques, vinhas e campos de cultivo. Durante as primeiras horas do dia as temperaturas foram relativamente baixas, o que até nem era mau para quem pedalava. No entanto, nos primeiros quilómetros andámos embrenhados num nevoeiro cerradíssimo que nos impossibilitou de apreciar devidamente as belas paisagens galegas. Apesar dos muitos quilómetros que já tínhamos nas pernas, o ritmo matinal foi bastante bom e, num instante, estávamos em Palas de Rei, uma das localidades marcantes do percurso. As localidades iam-se sucedendo a um ritmo elevado, tal como as subidas, maioritariamente curtas mas duras. Era a típica etapa de "rompe-pernas" e isso começou a notar-se. Desde a saída de Portomarín que o Nélson vinha com dores no tendão de Aquiles e, com o passar do tempo e dos quilómetros, estas iam-se agravando. Comigo a situação não era muito melhor! Não tinha dores mas faltavam-me as forças quando queria forçar um pouco mais o andamento.

Monte do GozoDepois de cruzar mais algumas localidades, de entre as quais se destacou Melide, pelo movimento que existia no centro desta pequena cidade, chegámos a Arzúa, onde realizámos as compras do dia e encontrámos uma pequena escadaria ideal para almoçar. Esta seria a última paragem significativa antes da chegada. Depois de mais um revigorante almoço, voltámos ao Caminho e às suas dificuldades e compensações. Apesar do imenso desgaste acumulado, esta foi a parte do percurso que menos me custou. A ânsia de chegar a Santiago era um forte estimulante. Os locais por onde passámos faziam lembrar um pouco as aldeias minhotas e o número de peregrinos que ultrapassávamos era cada vez maior. Por volta das quatro da tarde chegámos ao Monte do Gozo onde, pela primeira vez em todo o percurso, pudemos avistar Santiago.  Tínhamos superado a última grande dificuldade e agora seria um pequeno passeio até à cidade.

Santiago de Compostela - Abril 2007Eram quase cinco horas quando entrámos na Praça do Obradoiro e atingímos a nossa meta. Bem no centro da Praça estão duas placas que indicam o final do Caminho, mas a é a Catedral que domina as atenções de quase todos os presentes, maioritariamente turistas. Apenas os peregrinos procuram essas placas, pois apenas estes entendem verdadeiramente o seu significado. Depois das fotos da praxe, fomos tratar das formalidades habituais: carimbos e a Compostela. Em seguida voltámos à Catedral para fazer a visita ao Santo e cumprir mais alguns rituais do Caminho. No entanto, à semelhança de que acontecera no ano anterior, também desta vez não entrámos na Catedral. O Nélson estava com bastantes dores no tendão e já não conseguiu subir a escadaria frontal da Catedral. Optámos por tratar em primeiro lugar da saúde e dirigimo-nos ao posto da Cruz Vermelha, onde lhe ligaram o pé. Depois já só deu tempo para procurar dormida, o que não foi nada fácil! O Seminário Menor, onde tínhamos ficado no ano passado, já não albergava peregrinos e tivémos de procurar novo alojamento. Após alguma pesquisa, chegámos ao Albergue Aquário que já se encontrava esgotado. Atendendo ao nosso desgaste e à hora já avançada, o proprietário arranjou uma solução de recurso. Acabámos por dormir na sala de jantar, debaixo das mesas. O cansaço seria mais uma vez um bom sonífero.

Assim, cumprímos o principal objectivo da aventura que tínhamos começado uns dias antes. Mas ainda não estava tudo feito! No dia seguinte (Domingo de Páscoa), ainda teríamos muita estrada para percorrer. Só faltavam cerca de 200 quilómetros para chegarmos a casa e essa era a "ementa" para o dia seguinte.

Caminho Francês de Santiago – Dia 3: Villafranca del Briezo – Portomarín

O Cebreiro
Mais uma vez, o dia começou bem cedo e com temperaturas bem frescas. Os primeiros quilómetros da etapa foram feitos em ligeira subida, acompanhando os devaneios do rio Valcarce, por entre campos verdes e bosques revigorados pela chegada da Primavera. As paisagens eram bastante interessantes mas o nosso pensamento concentrava-se na grande dificuldade que nos esperava um pouco mais à frente. O Cebreiro, a mais terrível subida de todo o Caminho, aproximava-se e gerava alguma ansiedade. Na noite anterior, esta mítica subida era a preocupação de quase todos os peregrinos que se encontravam no Albergue. Depois de passar no interior de algumas aldeias, a inclinação das subidas ia-se acentuando cada vez mais. A partir do momento que virámos para La Laguna começou o verdadeiro tormento! Durante cerca de uma hora, tivémos de recorrer aos andamentos mais baixos da bicicleta e não deu para parar de pedalar por um instante sequer! Numa extensão de oito quilómetros ultrapassámos um desnível de quase mil metros. As rampas sucediam-se interminavelmente e íamos passando vários ciclistas apeados, vencidos pelo desgaste provocado por tão grande esforço. Quande chegámos a La Laguna, parámos para respirar e recuperar energias. Pouco depois, inicíamos o troço final da subida que nos levou até à magnifica aldeia de O Cebreiro. Lá bem no alto, as vistas eram magníficas, mas a aldeia de origens celtas (e com muitos vestígios bem preservados dessa presença) também justifica plenamente uma paragem um pouco mais demorada.

Pedalando na NeveDepois de passar O Cebreiro, pensávamos que o resto da etapa seria menos custosa. Puro engano! Logo a seguir tivémos a subida ao Alto do Poio que também não teve nada de fácil. O mau estado dos caminhos, cheios de neve e com muita lama e pedras soltas, dificultou-nos muito a progressão. O relevo da etapa era muito irregular, com várias rampas e algumas descidas arriscadas. Uma verdadeira montanha russa que exigia muita atenção na selecção do percurso, de modo a evitar surpresas desagradáveis. Nesta fase da etapa passámos por um grande grupo de peregrinos que seguia para Santiago a cavalo. Os peregrinos a pé eram uma presença constante, em bicicleta eram muitos menos e a cavalo foram estes os únicos com que nos cruzámos. Além dos cavalos, outros animais se atravessaram no nosso caminho. Como estávamos a atravassar o interior rural da Galiza, as manadas de vacas eram uma presença habitual nos caminhos e, por mais que uma vez, tivémos que esperar pacientemente que elas tomassem outro rumo, diferente do nosso.

Almoçando em TriacastelaNeste dia houve outro problema que nos apoquentou durante algum tempo. No dia anterior não encontrámos nenhuma loja aberta em Villafranca e não efectuámos as habituais compras. Assim, nessa manhã partimos com poucas reservas de alimentos. Quando aparecesse um supermercado aberto no caminho devíamos restabelecer os stocks de alimentos (principalmente pão e laranjas). Contudo, o tempo passava e, como estávamos a cruzar aldeias muito pequenas de cariz rural, não encontrávamos o desejado posto de abastecimento. Só por volta da uma hora da tarde, em Triacastela, é que descobrimos um pequeno supermercado aberto, onde fizémos as compras e à porta do qual almoçámos confortavelmente instalados e aproveitando o calor que ali se fazia sentir. Depois da paragem, surgiu uma nova dificuldade: a subida para o Alto de Riocabo, logo a seguir a A Balsa. A partir daí, foram mais alguns quilómetros menos custosos até chegar a Sarria. Este cidade dista pouco mais de 100 quilómetros de Santiago e, por isso, é escolhida por peregrinos menos experientes para iniciar as suas caminhadas.

PortomarinDepois de passar Sarria, o perfil da etapa voltou a agravar-se e as forças começavam a escassear. O objectivo mínimo da etapa era chegar a esta cidade, mas queríamos andar um pouco mais. Assim prosseguímos em direcção a Portomarín onde ficaríamos a menos de cem quilómetros de Santiago. Os caminhos que passámos eram muito irregulares e não estavam em muito bom estado, mas os marcos que indicavam a quilometragem para a chegada davam-nos algum ânimo. Por fim, ao final da tarde chegámos a Portomarín e, depois de atravessar o Rio Minho, dirigimo-nos ao Albergue Municipal onde, apesar de ainda existirem camas, não aceitavam mais peregrinos. Depois de alguma pesquisa, encontrámos um albergue privado com excelentes condições, onde acabámos por pernoitar. Mais um dia difícil que tínhamos ultrapassado e já se sentia a proximidade de Santiago. Estávamos quase a chegar!

Caminho Francês de Santiago – Dia 2: Leon – Villafranca del Briezo

Catedral de LeonDepois da extenuante etapa percorrida no dia anterior, as perspectivas para este dia não eram muito melhores. A ideia inicial era tentar chegar, pelo menos, a Ponferrada. A primeira parte da etapa ligava León a Astorga e o seu relevo era relativamente plano. No entanto, depois do que passámos no dia anterior, isto não queria dizer muito. O nosso dia de começou bem cedo e com mais uma surpresa! Apesar das previsões de bom tempo (que se viriam a confirmar), à saída de León, os termómetros estavam abaixo do zero. Isto não foi grande problema porque ao pedalar perdemos completamente o frio. Em León ainda pudemos apreciar a majestosa catedral e outros edifícios interessantes no centro da cidade. Dali levámos ainda uma encomenda. Um peregrino alemão que planeava chegar nesse dia a Astorga, tinha-se esquecido da sua toalha no Albergue das Irmãs Castrajales e, a pedido da Sor Ana Maria, realizámos a pequena tarefa de a entregar no destino.

Palacio Gaudi - AstorgaO trajecto até Astorga foi feito a grande ritmo e sem dificuldades de maior, percorrendo maioritariamente caminhos em terra batida, sem grandes oscilações de relevo. Durante esta ligação, merece destaque a localidade de Hospital de Órbigo. À entrada da vila temos uma longa ponte romana sobre o rio Órbigo, que é o seu cartão de visita. Depois de uma pequena paragem para comer qualquer coisa, seguimos em direcção a Astorga onde chegámos por volta das 11 horas. Não estava prevista nenhuma paragem mais demorada em Astorga, mas fomos praticamente obrigados a isso. A cidade que em tempos estava ligada a Braga por uma importante via romana, possui alguns monumentos muito interessantes que não podíamos deixar de visitar. Entre eles merecem destaque o Palácio Gaudi e a Catedral de Astorga. Esta, apesar de não ser tão imponente como as de Burgos e León, é também bastante interessante. O Palácio Gaudi é um edifício muito peculiar, que merecia uma visita ainda mais demorada, até porque tem um museu dedicado aos Caminhos de Santiago.

Cruz de Ferro - Caminho de SantiagoA segunda parte da etapa tinha um grau de dificuldade mais elevado. Estávamos mais próximos das Astúrias e da Galiza e, como tal, as montanhas começavam a substituir as intermináveis planícies de Castela e Leão. À saída de Astorga cruzámo-nos pela primeira vez com um outro ciclista que já vinha de Saragoça e que acabou por chegar ao mesmo tempo que nós a Santiago. Durante os dias seguintes encontrámo-nos por várias vezes ao longo do Caminho e íamo-nos incentivando mutuamente. Até à hora de almoço ainda fizémos mais alguns quilómetros, a maior parte deles em subida. Parámos em Rabanal del Camino para comer as deliciosas sandes de marmelada que, naqueles momentos, nos sabiam pela vida! Depois de mais uma saborosa refeição, continuámos a subir, com rampas cada vez mais íngremes, até atingirmos a Cruz de Ferro. Este monumento evocativo do Caminho está precisamente colocado no seu ponto mais alto, elevando-se a mais de 1500 metros. Durante a subida, depois de algumas dificuldades provocadas pelo esforço realizado logo após a refeição, fomos presenteados com mais uma surpresa. Quando estávamos a atingir o cume da montanha, começou a nevar. Embora nevasse muito levemente, foi mais uma agradável prenda do Caminho. Como era de esperar, depois de uma enorme subida, teríamos pela frente uma impressionante descida. Com algumas partes feitas por estrada, foi possível atingir velocidades a rondar os 80 kms/h. Pelo meio fizémos ainda alguns troços de verdadeiro down-hill, muito duros para nós e mais ainda para as bicicletas.

Albergue do Jato - Villafrana del BriezoAté Ponferrada foi um instante e, como chegámos lá relativamente cedo, continuámos viagem. Planeámos então seguir até Cacabelos. A paisagem do Caminho era agora substancialmente diferente. Deixámos os enormes campos de cereais castelhanos e passámos a cruzar muitas vinhas e bosques, intermeados com pequenas aldeias típicas da Galiza. Quando chegámos ao destino, não existia nenhum albergue em Cacabelos, pelo que tivémos de seguir viagem. Depois de mais alguns quilómetros sofridos, devido ao desgaste acumulado, chegámos a Villafranca del Briezo, onde encontrámos os últimos lugares disponíveis num albergue privado. O Albergue do Jato é um dos símbolos do caminho. O seu aspecto pitoresco e as suas tradições místicas compensam um pouco as suas condições de alojamento. Um bom jantar, algumas conversas com outros peregrinos e estava mais uma etapa cumprida. E a próxima prometia muito mais!

Caminho Francês de Santiago – Dia 1: Castrojeriz – León

Carrion de los Condes
O primeiro dia verdadeiramente dedicado ao Caminho prometia muito, não só pela extensão da etapa, mas também por passar em lugares de inegável interesse. A etapa começou bem cedo. Às 8.30h saímos de Castrojeriz e tivémos logo uma surpresa pouco agradável: a chuva fez a sua aparição logo pela manhã, depois das ameaças do dia anterior. Assim, as primeiras horas foram feitas sob uma chuva persistente que nos provocou muito desconforto. Além de prejudicar o andamento, fez com que, em alguns momentos, sentíssemos bastante frio. Apesar de não termos grandes desníveis em termos de perfil da etapa, a altitude média da tirada rondava os 900m. Mesmo sendo uma etapa essencialmente para rolar, logo à saída de Castrojeriz tivemos de realizar uma subida relativamente curta mas muito íngreme. Depois foi sempre a rolar em bom ritmo até chegarmos a Carrión de Los Condes. Aí, efectuámos uma pequena paragem para comer uma sande e, durante esse pequeno interregno, a chuva parou, criando assim boas perspectivas para o resto da etapa.

Planícies de CastelaAproveitando as enormes planícies, alguns troços em alcatrão e o bom tempo que entretanto surgira, pedalámos em excelente ritmo e, à hora de almoço, já nos encontrávamos em Sahagún. Foi nessa cidade que fizemos uma nova paragem para comer mais qualquer coisa e descansar um pouquinho. Os objectivos do dia estavam a ser plenamente cumpridos e o ânimo era muito, por isso o optimismo dominava entre os nossos sentimentos. Nesta altura da viagem ficámos impressionados com a quantidade de peregrinos que seguiam para Compostela. Apesar de estarmos a mais de 400 kms de Santiago, passámos por centenas de caminhantes e alguns ciclistas. A paisagem não se alterava muito com o passar dos quilómetros. Cruzávamos sucessivos campos de cultivo estendendo-se pelas infindáveis planícies, senado esta monotonia quebrada por pequenas aldeias com pequenos cascos urbanos onde se destacavam as igrejas românicas. Curiosamente, o Caminho fazia questão de visitar todas essas aldeias e passar bem no seu interior. Este é um dos aspectos que torna este percurso um roteiro cultural de excelência.

Bicicletas em repousoDurante a tarde o panorama alterou-se radicalmente. O percurso continuava a ser muito plano e a paisagem não variava muito. Porém, surgiu um novo interveniente: o vento. A partir do meio-dia começou a sentir-se uma brisa que foi ganhando força ao longo da tarde. A partir de Sahagún, a intensidade do vento aumentou progressivamente, tornando uma etapa que estava a ser agradável num verdadeiro tormento. A meio da tarde os ventos eram já muito fortes e sopravam quase sempre lateralmente e por vezes frontalmente. Dado que já tínhamos mais de 100 kms nas pernas, o cansaço começou a manifestar-se e o optimismo que se fazia sentir de manhã já eram apenas uma recordação. A intensidade e direcção do vento dificultavam muito a nossa tarefa, chegando ao ponto de termos de pedalar nas descidas, senão o vento não nos deixava avançar. Com estas condições, o ritmo diminuiu bastante, contrarioamente ao cansaço. Os últimos quilómetros, na aproximação a Leon, foram verdadeiramente penosos. Quando por fim chegámos a León, completamente esgotados, ainda tivemos de enfrentar dificuldades em encontrar alojamento. Valeu-nos a boa vontade e grande disponibilidade das Irmãs do Albergue de Castrajales. Era muito difícil encontrar dormida na cidade já que, devido às comemorações da Semana Santa, a cidade estava repleta de turistas. Ainda presenciámos uma das típicas procissões leonesas com as suas confrarias, mas o cansaço que sentíamos e a necessidade de descanso para enfrentar as próximas etapas não nos permitiram uma visita mais demorada a esta interessante e importante cidade.