Caminho Português de Santiago – Dia 3: Porriño – Santiago de Compostela

O Albergue de Peregrinos de Porriño tinha as condições mais que necessárias para um bom descanso, mas isso não se verificou. O ciclista português que pernoitou no beliche do lado dormiu muito bem, mas foi o único. Não se pode dizer que ele ressonava – ele roncava e com um nível bem considerável de décibeis. Foi uma noite complicada para todos (menos um), mas o dia prometia ser longo e, por isso, o melhor era arrancar bem cedo. Assim o fizemos e as primeiras pedaladas do dia foram dadas com temperaturas bem baixas, que se deixaram de sentir quando o relevo começou a fazer-se notar – o que não demorou nada. De Porriño a Redondela as subidas sucediam-se e algumas não eram nada meigas.

caminho_santiago_2010_canicouva.JPGAntes da chegada à “metrópole” Pontevedra, ainda existem alguns locais dignos de destaque. A pequena localidade de Pontesampaio impressiona logo à entrada. A ponte romana sobre o rio Verdugo é um belíssimo postal e o emaranhado de ruas pelo interior do povoado, onde se sucedem rampas com desníveis incríveis, são aspectos marcantes desta passagem. Pouco depois, após uma incursão por entre campos e montes, surge mais um dos monumentos emblemáticos do Caminho: a Calçada Romana de Canicouva. Mais uma enorme dificuldade para quem segue, ou tenta seguir, sobre duas rodas. A aproximação a Pontevedra leva o caminho e percorrer algumas estradas municipais e nota-se o movimento de uma grande cidade, não só pelo acréscimo de trânsito, mas também na dificuldade em descortinar as omnipresentes setas amarelas.

CS2010_Pontevedra1.JPGÀ saída de Pontevedra aproveitámos para um pequeno lanche e planear o resto do dia. Concluímos que se o ritmo se mantivesse assim, era perfeitamente normal chegar a Santiago nesse dia, a horas bem razoáveis. Nesta fase, o Caminho atravessava alguns bosques e cruzava pequenos ribeiros, não existindo dificuldades muito acentuadas em termos de relevo. Pouco depois do meio-dia chegávamos a Caldas de Reis, onde parámos mais demoradamente para almoçar. Nesta localidade já se sentia a proximidade de Santiago. O número de peregrinos ia aumentando à medida que íamos progredindo, mas aqui notou-se mais claramente. Pouco depois do almoço havia uma enorme fila à entrada do albergue local. Como tencionávamos terminar nesse dia, seguímos caminho. Mais umas pedaladas e mais uma mudança de cenário. Agora eram as vinhas a ladear o Caminho. Pequenos carreiros por entre vinhas que começavam a amadurecer trouxeram novos cenários e aromas ao percurso. O momento mais agradável do dia veio logo de seguida, quando fomos surpreendidos por um espectacular single-track, com um excelente piso, sob um arvoredo refrescante, feito a grande velocidade. No final parámos e foi por pouco que não voltámos atrás para repetir.

CS2010_Pontevedra.JPGA última paragem desta longa etapa – cerca de 100 kms – seria em Padron (terra dos pimentos). Uma pausa para um gelado e ganhar força para o final. Um pouco antes, o meu pneu traseiro, que já vinha perdendo algum ar desde o início, começou a fazer-se notar. Primeiro apareceu um “abcesso” que depois de “lancetado” permitiu continuar até encontrar um posto de abastecimento de combustível onde foi bem enchido (demais até!). Com o excesso de pressão, o pneu ganhou um novo inchaço que rebentou e fez com que o pneu perdesse ar ainda mais rapidamente. Assim, no fim do gelado, o pneu estava completamente vazio. Foi enchido manualmente e deu para andar apenas mais uns metros. Numa fonte, junto ao mosteiro de A Esclavitude, improvisámos um pouco e trocámos as rodas traseiras, para ver se, com menos carga, o pneu aguentava até Santiago. Não resultou e, a cerca de quinze quilómetros do destino, tínhamos um problema sério a resolver.

caminho_santiago_2010_obradoiro.JPGCom a meta à vista, arranquei com a carga rumo ao Obradoiro e o Miguel faria os quilómetros finais a pé. Este infortúnio tornou o final de um dia, que até aí tinha sido fantástico, num verdadeiro suplício. Ao fim da tarde, já depois de, sem sucesso, ter procurado dormida em Compostela, procurámos uma solução para descansar ao fim de tão longo dia. Já caía a noite quando chegamos ao albergue do Monte do Gozo e, após mais uma série de peripécias, lá conseguimos encontrar um colchão e relaxar um pouco o corpo fatigado. Desta vez sempre deu para descansar um pouco mais. O cansaço era maior e o “roncatório” era (um pouco) menor. Com tantos momentos a marcar uma longa aventura, esta jamais será esquecida. E, possivelmente, quando as recordações já não forem tão fortes, será algo a repetir. É só juntar um pouco de coragem e loucura e meter novamente os pés ao Caminho. Talvez a próxima seja mesmo assim, apenas com os pés ao caminho. A ver vamos…

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  1. Miguel

    :)
    Recomendo a todos aqueles que gostem de aliar a prática de desporto à natureza e procura de um bem estar superior que façam este caminho e constatarem que muitas vezes os melhores prazeres da vida estão onde menos se esperam e ao alcanse de qualquer aventureiro/peregrino.
    Sem sombra de dúvida que será para repetir… não sei quando mas que será será! Talvez variando no meio de transporte….

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