Caminho Português de Santiago – Dia 3: Porriño – Santiago de Compostela
30th August 2010 por helder
O Albergue de Peregrinos de Porriño tinha as condições mais que necessárias para um bom descanso, mas isso não se verificou. O ciclista português que pernoitou no beliche do lado dormiu muito bem, mas foi o único. Não se pode dizer que ele ressonava – ele roncava e com um nível bem considerável de décibeis. Foi uma noite complicada para todos (menos um), mas o dia prometia ser longo e, por isso, o melhor era arrancar bem cedo. Assim o fizemos e as primeiras pedaladas do dia foram dadas com temperaturas bem baixas, que se deixaram de sentir quando o relevo começou a fazer-se notar – o que não demorou nada. De Porriño a Redondela as subidas sucediam-se e algumas não eram nada meigas.
Antes da chegada à “metrópole” Pontevedra, ainda existem
alguns locais dignos de destaque. A pequena localidade de Pontesampaio
impressiona logo à entrada. A ponte romana sobre o rio Verdugo é um belíssimo postal
e o emaranhado de ruas pelo interior do povoado, onde se sucedem rampas com
desníveis incríveis, são aspectos marcantes desta passagem. Pouco depois, após
uma incursão por entre campos e montes, surge mais um dos monumentos
emblemáticos do Caminho: a Calçada Romana de Canicouva. Mais uma enorme
dificuldade para quem segue, ou tenta seguir, sobre duas rodas. A aproximação a
Pontevedra leva o caminho e percorrer algumas estradas municipais e nota-se o
movimento de uma grande cidade, não só pelo acréscimo de trânsito, mas também
na dificuldade em descortinar as omnipresentes setas amarelas.
À saída de Pontevedra aproveitámos para um pequeno lanche e
planear o resto do dia. Concluímos que se o ritmo se mantivesse assim, era
perfeitamente normal chegar a Santiago nesse dia, a horas bem razoáveis. Nesta
fase, o Caminho atravessava alguns bosques e cruzava pequenos ribeiros, não
existindo dificuldades muito acentuadas em termos de relevo. Pouco depois do
meio-dia chegávamos a Caldas de Reis, onde parámos mais demoradamente para
almoçar. Nesta localidade já se sentia a proximidade de Santiago. O número de
peregrinos ia aumentando à medida que íamos progredindo, mas aqui notou-se mais
claramente. Pouco depois do almoço havia uma enorme fila à entrada do albergue
local. Como tencionávamos terminar nesse dia, seguímos caminho. Mais umas
pedaladas e mais uma mudança de cenário. Agora eram as vinhas a ladear o
Caminho. Pequenos carreiros por entre vinhas que começavam a amadurecer
trouxeram novos cenários e aromas ao percurso. O momento mais agradável do dia veio
logo de seguida, quando fomos surpreendidos por um espectacular single-track,
com um excelente piso, sob um arvoredo refrescante, feito a grande velocidade.
No final parámos e foi por pouco que não voltámos atrás para repetir.
A última paragem desta longa etapa – cerca de 100 kms –
seria em Padron (terra dos pimentos). Uma pausa para um gelado e ganhar força
para o final. Um pouco antes, o meu pneu traseiro, que já vinha perdendo algum
ar desde o início, começou a fazer-se notar. Primeiro apareceu um “abcesso” que
depois de “lancetado” permitiu continuar até encontrar um posto de
abastecimento de combustível onde foi bem enchido (demais até!). Com o excesso
de pressão, o pneu ganhou um novo inchaço que rebentou e fez com que o pneu
perdesse ar ainda mais rapidamente. Assim, no fim do gelado, o pneu estava
completamente vazio. Foi enchido manualmente e deu para andar apenas mais uns
metros. Numa fonte, junto ao mosteiro de A Esclavitude, improvisámos um pouco e
trocámos as rodas traseiras, para ver se, com menos carga, o pneu aguentava até
Santiago. Não resultou e, a cerca de quinze quilómetros do destino, tínhamos um
problema sério a resolver.
Com a meta à vista, arranquei com a carga rumo ao Obradoiro
e o Miguel faria os quilómetros finais a pé. Este infortúnio tornou o final de
um dia, que até aí tinha sido fantástico, num verdadeiro suplício. Ao fim da
tarde, já depois de, sem sucesso, ter procurado dormida em Compostela,
procurámos uma solução para descansar ao fim de tão longo dia. Já caía a noite
quando chegamos ao albergue do Monte do Gozo e, após mais uma série de
peripécias, lá conseguimos encontrar um colchão e relaxar um pouco o corpo
fatigado. Desta vez sempre deu para descansar um pouco mais. O cansaço era
maior e o “roncatório” era (um pouco) menor. Com tantos momentos a marcar uma longa aventura, esta jamais
será esquecida. E, possivelmente, quando as recordações já não forem tão
fortes, será algo a repetir. É só juntar um pouco de coragem e loucura e meter
novamente os pés ao Caminho. Talvez a próxima seja mesmo assim, apenas com os
pés ao caminho. A ver vamos…








Recomendo a todos aqueles que gostem de aliar a prática de desporto à natureza e procura de um bem estar superior que façam este caminho e constatarem que muitas vezes os melhores prazeres da vida estão onde menos se esperam e ao alcanse de qualquer aventureiro/peregrino.
Sem sombra de dúvida que será para repetir… não sei quando mas que será será! Talvez variando no meio de transporte….