Monthly Archives: May 2007

Caminho Franc̻s de Santiago РDia 5: Santiago de Compostela РCarape̤os

Santiago de Compostela
Após uma longa viagem pelo Norte de Espanha, faltavam ainda muitos quilómetros para chegarmos a casa. Esse era o objectivo da última etapa. Esta seria a etapa mais longa, mas tinha atenuantes: seria feita inteiramente por estrada e já conhecíamos o percurso. Como habitualmente, o dia começou bem cedo e com temperaturas baixas, apesar das perspectivas de um dia solarengo. Deixámos Santiago por volta das 8 horas da manhã e seguímos em bom ritmo até Pontevedra, onde efectuámos a primeira paragem para um pequeno lanche, por volta das 11 horas. A boa média que realizámos ainda sai mais reforçada se tivermos em conta que o Nélson só podia fazer força num dos pedais, já que tinha o pé esquerdo imobilizado.

TuyDepois da paragem em Pontevedra, o ritmo não diminuiu. As estradas estavam em boas condições e apenas a grande concentração de automóveis em algumas localidades nos atrasou um pouco. Um desses sítios foi Padrón, onde se realizava uma feira de grande tradição. Nesta fase do percurso passámos por vários ciclistas domingueiros e alguns carros. Nem se notava que era Domingo de Páscoa! Pouco depois, começamos a ver algumas placas a indicar "Portugal". Entretanto chegámos a Porrino onde entrámos na via rápida, onde seguimos em grande velocidade até Tuy. Foram cerca de 30 kms em menos de uma hora e assim chegámos bem perto da fronteira luso-galaica. Parámos num pequeno relvado à saída de Tuy e aí almoçamos calmamente, pois os planos estavam a ser inteiramente cumpridos. O sítio era tão aprazível que custou bastante deixá-lo e voltar ao selim.

Esmaltina em casaPor volta das duas da tarde cruzámos o Rio Minho e entrámos em Valença. Depois de cruzar a fronteira começamos logo a sentir a diferença de comportamento dos condutores relativamente aos ciclistas. Os nossos hermanos demonstraram sempre um elevado nível de civismo e cuidado com os ciclistas. Este foi apenas um dos aspectos que piorou ao pedalar por Portugal. O outro foi o tempo. Depois de uma manhã solarenga, a tarde trouxe o frio e também a chuva. Pouco depois de passar Valença começou a chover e, até Ponte de Lima, a intensidade da chuva foi-se agravando. A chuva só parou quando já estávamos a chegar a casa, mas, apesar de nos ter deixado mais uma vez completamente encharcados, a chuva teve um aspecto positivo: a minha bicicleta já fazia ruídos por todo o lado e, de repente, tornou-se silenciosa e já parecia nova. Por volta das cinco da tarde chegámos a casa e concluímos mais uma grande aventura sobre duas rodas. Já existem planos para novos empreendimentos do género, a realizar brevemente.

Caminho Francês de Santiago – Dia 4: Portomarín – Santiago de Compostela

Pedalando pela Galiza
A proximidade de Santiago era mais um factor motivador para esta etapa. Com uma extensão ligeiramente inferior a 100 kms, esta ligação entre Portomarín e Santiago caracterizava-se pelas constantes subidas e descidas do percurso, marcado por vários bosques, vinhas e campos de cultivo. Durante as primeiras horas do dia as temperaturas foram relativamente baixas, o que até nem era mau para quem pedalava. No entanto, nos primeiros quilómetros andámos embrenhados num nevoeiro cerradíssimo que nos impossibilitou de apreciar devidamente as belas paisagens galegas. Apesar dos muitos quilómetros que já tínhamos nas pernas, o ritmo matinal foi bastante bom e, num instante, estávamos em Palas de Rei, uma das localidades marcantes do percurso. As localidades iam-se sucedendo a um ritmo elevado, tal como as subidas, maioritariamente curtas mas duras. Era a típica etapa de "rompe-pernas" e isso começou a notar-se. Desde a saída de Portomarín que o Nélson vinha com dores no tendão de Aquiles e, com o passar do tempo e dos quilómetros, estas iam-se agravando. Comigo a situação não era muito melhor! Não tinha dores mas faltavam-me as forças quando queria forçar um pouco mais o andamento.

Monte do GozoDepois de cruzar mais algumas localidades, de entre as quais se destacou Melide, pelo movimento que existia no centro desta pequena cidade, chegámos a Arzúa, onde realizámos as compras do dia e encontrámos uma pequena escadaria ideal para almoçar. Esta seria a última paragem significativa antes da chegada. Depois de mais um revigorante almoço, voltámos ao Caminho e às suas dificuldades e compensações. Apesar do imenso desgaste acumulado, esta foi a parte do percurso que menos me custou. A ânsia de chegar a Santiago era um forte estimulante. Os locais por onde passámos faziam lembrar um pouco as aldeias minhotas e o número de peregrinos que ultrapassávamos era cada vez maior. Por volta das quatro da tarde chegámos ao Monte do Gozo onde, pela primeira vez em todo o percurso, pudemos avistar Santiago.  Tínhamos superado a última grande dificuldade e agora seria um pequeno passeio até à cidade.

Santiago de Compostela - Abril 2007Eram quase cinco horas quando entrámos na Praça do Obradoiro e atingímos a nossa meta. Bem no centro da Praça estão duas placas que indicam o final do Caminho, mas a é a Catedral que domina as atenções de quase todos os presentes, maioritariamente turistas. Apenas os peregrinos procuram essas placas, pois apenas estes entendem verdadeiramente o seu significado. Depois das fotos da praxe, fomos tratar das formalidades habituais: carimbos e a Compostela. Em seguida voltámos à Catedral para fazer a visita ao Santo e cumprir mais alguns rituais do Caminho. No entanto, à semelhança de que acontecera no ano anterior, também desta vez não entrámos na Catedral. O Nélson estava com bastantes dores no tendão e já não conseguiu subir a escadaria frontal da Catedral. Optámos por tratar em primeiro lugar da saúde e dirigimo-nos ao posto da Cruz Vermelha, onde lhe ligaram o pé. Depois já só deu tempo para procurar dormida, o que não foi nada fácil! O Seminário Menor, onde tínhamos ficado no ano passado, já não albergava peregrinos e tivémos de procurar novo alojamento. Após alguma pesquisa, chegámos ao Albergue Aquário que já se encontrava esgotado. Atendendo ao nosso desgaste e à hora já avançada, o proprietário arranjou uma solução de recurso. Acabámos por dormir na sala de jantar, debaixo das mesas. O cansaço seria mais uma vez um bom sonífero.

Assim, cumprímos o principal objectivo da aventura que tínhamos começado uns dias antes. Mas ainda não estava tudo feito! No dia seguinte (Domingo de Páscoa), ainda teríamos muita estrada para percorrer. Só faltavam cerca de 200 quilómetros para chegarmos a casa e essa era a "ementa" para o dia seguinte.

Caminho Francês de Santiago – Dia 3: Villafranca del Briezo – Portomarín

O Cebreiro
Mais uma vez, o dia começou bem cedo e com temperaturas bem frescas. Os primeiros quilómetros da etapa foram feitos em ligeira subida, acompanhando os devaneios do rio Valcarce, por entre campos verdes e bosques revigorados pela chegada da Primavera. As paisagens eram bastante interessantes mas o nosso pensamento concentrava-se na grande dificuldade que nos esperava um pouco mais à frente. O Cebreiro, a mais terrível subida de todo o Caminho, aproximava-se e gerava alguma ansiedade. Na noite anterior, esta mítica subida era a preocupação de quase todos os peregrinos que se encontravam no Albergue. Depois de passar no interior de algumas aldeias, a inclinação das subidas ia-se acentuando cada vez mais. A partir do momento que virámos para La Laguna começou o verdadeiro tormento! Durante cerca de uma hora, tivémos de recorrer aos andamentos mais baixos da bicicleta e não deu para parar de pedalar por um instante sequer! Numa extensão de oito quilómetros ultrapassámos um desnível de quase mil metros. As rampas sucediam-se interminavelmente e íamos passando vários ciclistas apeados, vencidos pelo desgaste provocado por tão grande esforço. Quande chegámos a La Laguna, parámos para respirar e recuperar energias. Pouco depois, inicíamos o troço final da subida que nos levou até à magnifica aldeia de O Cebreiro. Lá bem no alto, as vistas eram magníficas, mas a aldeia de origens celtas (e com muitos vestígios bem preservados dessa presença) também justifica plenamente uma paragem um pouco mais demorada.

Pedalando na NeveDepois de passar O Cebreiro, pensávamos que o resto da etapa seria menos custosa. Puro engano! Logo a seguir tivémos a subida ao Alto do Poio que também não teve nada de fácil. O mau estado dos caminhos, cheios de neve e com muita lama e pedras soltas, dificultou-nos muito a progressão. O relevo da etapa era muito irregular, com várias rampas e algumas descidas arriscadas. Uma verdadeira montanha russa que exigia muita atenção na selecção do percurso, de modo a evitar surpresas desagradáveis. Nesta fase da etapa passámos por um grande grupo de peregrinos que seguia para Santiago a cavalo. Os peregrinos a pé eram uma presença constante, em bicicleta eram muitos menos e a cavalo foram estes os únicos com que nos cruzámos. Além dos cavalos, outros animais se atravessaram no nosso caminho. Como estávamos a atravassar o interior rural da Galiza, as manadas de vacas eram uma presença habitual nos caminhos e, por mais que uma vez, tivémos que esperar pacientemente que elas tomassem outro rumo, diferente do nosso.

Almoçando em TriacastelaNeste dia houve outro problema que nos apoquentou durante algum tempo. No dia anterior não encontrámos nenhuma loja aberta em Villafranca e não efectuámos as habituais compras. Assim, nessa manhã partimos com poucas reservas de alimentos. Quando aparecesse um supermercado aberto no caminho devíamos restabelecer os stocks de alimentos (principalmente pão e laranjas). Contudo, o tempo passava e, como estávamos a cruzar aldeias muito pequenas de cariz rural, não encontrávamos o desejado posto de abastecimento. Só por volta da uma hora da tarde, em Triacastela, é que descobrimos um pequeno supermercado aberto, onde fizémos as compras e à porta do qual almoçámos confortavelmente instalados e aproveitando o calor que ali se fazia sentir. Depois da paragem, surgiu uma nova dificuldade: a subida para o Alto de Riocabo, logo a seguir a A Balsa. A partir daí, foram mais alguns quilómetros menos custosos até chegar a Sarria. Este cidade dista pouco mais de 100 quilómetros de Santiago e, por isso, é escolhida por peregrinos menos experientes para iniciar as suas caminhadas.

PortomarinDepois de passar Sarria, o perfil da etapa voltou a agravar-se e as forças começavam a escassear. O objectivo mínimo da etapa era chegar a esta cidade, mas queríamos andar um pouco mais. Assim prosseguímos em direcção a Portomarín onde ficaríamos a menos de cem quilómetros de Santiago. Os caminhos que passámos eram muito irregulares e não estavam em muito bom estado, mas os marcos que indicavam a quilometragem para a chegada davam-nos algum ânimo. Por fim, ao final da tarde chegámos a Portomarín e, depois de atravessar o Rio Minho, dirigimo-nos ao Albergue Municipal onde, apesar de ainda existirem camas, não aceitavam mais peregrinos. Depois de alguma pesquisa, encontrámos um albergue privado com excelentes condições, onde acabámos por pernoitar. Mais um dia difícil que tínhamos ultrapassado e já se sentia a proximidade de Santiago. Estávamos quase a chegar!

Caminho Francês de Santiago – Dia 2: Leon – Villafranca del Briezo

Catedral de LeonDepois da extenuante etapa percorrida no dia anterior, as perspectivas para este dia não eram muito melhores. A ideia inicial era tentar chegar, pelo menos, a Ponferrada. A primeira parte da etapa ligava León a Astorga e o seu relevo era relativamente plano. No entanto, depois do que passámos no dia anterior, isto não queria dizer muito. O nosso dia de começou bem cedo e com mais uma surpresa! Apesar das previsões de bom tempo (que se viriam a confirmar), à saída de León, os termómetros estavam abaixo do zero. Isto não foi grande problema porque ao pedalar perdemos completamente o frio. Em León ainda pudemos apreciar a majestosa catedral e outros edifícios interessantes no centro da cidade. Dali levámos ainda uma encomenda. Um peregrino alemão que planeava chegar nesse dia a Astorga, tinha-se esquecido da sua toalha no Albergue das Irmãs Castrajales e, a pedido da Sor Ana Maria, realizámos a pequena tarefa de a entregar no destino.

Palacio Gaudi - AstorgaO trajecto até Astorga foi feito a grande ritmo e sem dificuldades de maior, percorrendo maioritariamente caminhos em terra batida, sem grandes oscilações de relevo. Durante esta ligação, merece destaque a localidade de Hospital de Órbigo. À entrada da vila temos uma longa ponte romana sobre o rio Órbigo, que é o seu cartão de visita. Depois de uma pequena paragem para comer qualquer coisa, seguimos em direcção a Astorga onde chegámos por volta das 11 horas. Não estava prevista nenhuma paragem mais demorada em Astorga, mas fomos praticamente obrigados a isso. A cidade que em tempos estava ligada a Braga por uma importante via romana, possui alguns monumentos muito interessantes que não podíamos deixar de visitar. Entre eles merecem destaque o Palácio Gaudi e a Catedral de Astorga. Esta, apesar de não ser tão imponente como as de Burgos e León, é também bastante interessante. O Palácio Gaudi é um edifício muito peculiar, que merecia uma visita ainda mais demorada, até porque tem um museu dedicado aos Caminhos de Santiago.

Cruz de Ferro - Caminho de SantiagoA segunda parte da etapa tinha um grau de dificuldade mais elevado. Estávamos mais próximos das Astúrias e da Galiza e, como tal, as montanhas começavam a substituir as intermináveis planícies de Castela e Leão. À saída de Astorga cruzámo-nos pela primeira vez com um outro ciclista que já vinha de Saragoça e que acabou por chegar ao mesmo tempo que nós a Santiago. Durante os dias seguintes encontrámo-nos por várias vezes ao longo do Caminho e íamo-nos incentivando mutuamente. Até à hora de almoço ainda fizémos mais alguns quilómetros, a maior parte deles em subida. Parámos em Rabanal del Camino para comer as deliciosas sandes de marmelada que, naqueles momentos, nos sabiam pela vida! Depois de mais uma saborosa refeição, continuámos a subir, com rampas cada vez mais íngremes, até atingirmos a Cruz de Ferro. Este monumento evocativo do Caminho está precisamente colocado no seu ponto mais alto, elevando-se a mais de 1500 metros. Durante a subida, depois de algumas dificuldades provocadas pelo esforço realizado logo após a refeição, fomos presenteados com mais uma surpresa. Quando estávamos a atingir o cume da montanha, começou a nevar. Embora nevasse muito levemente, foi mais uma agradável prenda do Caminho. Como era de esperar, depois de uma enorme subida, teríamos pela frente uma impressionante descida. Com algumas partes feitas por estrada, foi possível atingir velocidades a rondar os 80 kms/h. Pelo meio fizémos ainda alguns troços de verdadeiro down-hill, muito duros para nós e mais ainda para as bicicletas.

Albergue do Jato - Villafrana del BriezoAté Ponferrada foi um instante e, como chegámos lá relativamente cedo, continuámos viagem. Planeámos então seguir até Cacabelos. A paisagem do Caminho era agora substancialmente diferente. Deixámos os enormes campos de cereais castelhanos e passámos a cruzar muitas vinhas e bosques, intermeados com pequenas aldeias típicas da Galiza. Quando chegámos ao destino, não existia nenhum albergue em Cacabelos, pelo que tivémos de seguir viagem. Depois de mais alguns quilómetros sofridos, devido ao desgaste acumulado, chegámos a Villafranca del Briezo, onde encontrámos os últimos lugares disponíveis num albergue privado. O Albergue do Jato é um dos símbolos do caminho. O seu aspecto pitoresco e as suas tradições místicas compensam um pouco as suas condições de alojamento. Um bom jantar, algumas conversas com outros peregrinos e estava mais uma etapa cumprida. E a próxima prometia muito mais!