Monthly Archives: April 2007

Caminho Francês de Santiago – Dia 1: Castrojeriz – León

Carrion de los Condes
O primeiro dia verdadeiramente dedicado ao Caminho prometia muito, não só pela extensão da etapa, mas também por passar em lugares de inegável interesse. A etapa começou bem cedo. Às 8.30h saímos de Castrojeriz e tivémos logo uma surpresa pouco agradável: a chuva fez a sua aparição logo pela manhã, depois das ameaças do dia anterior. Assim, as primeiras horas foram feitas sob uma chuva persistente que nos provocou muito desconforto. Além de prejudicar o andamento, fez com que, em alguns momentos, sentíssemos bastante frio. Apesar de não termos grandes desníveis em termos de perfil da etapa, a altitude média da tirada rondava os 900m. Mesmo sendo uma etapa essencialmente para rolar, logo à saída de Castrojeriz tivemos de realizar uma subida relativamente curta mas muito íngreme. Depois foi sempre a rolar em bom ritmo até chegarmos a Carrión de Los Condes. Aí, efectuámos uma pequena paragem para comer uma sande e, durante esse pequeno interregno, a chuva parou, criando assim boas perspectivas para o resto da etapa.

Planícies de CastelaAproveitando as enormes planícies, alguns troços em alcatrão e o bom tempo que entretanto surgira, pedalámos em excelente ritmo e, à hora de almoço, já nos encontrávamos em Sahagún. Foi nessa cidade que fizemos uma nova paragem para comer mais qualquer coisa e descansar um pouquinho. Os objectivos do dia estavam a ser plenamente cumpridos e o ânimo era muito, por isso o optimismo dominava entre os nossos sentimentos. Nesta altura da viagem ficámos impressionados com a quantidade de peregrinos que seguiam para Compostela. Apesar de estarmos a mais de 400 kms de Santiago, passámos por centenas de caminhantes e alguns ciclistas. A paisagem não se alterava muito com o passar dos quilómetros. Cruzávamos sucessivos campos de cultivo estendendo-se pelas infindáveis planícies, senado esta monotonia quebrada por pequenas aldeias com pequenos cascos urbanos onde se destacavam as igrejas românicas. Curiosamente, o Caminho fazia questão de visitar todas essas aldeias e passar bem no seu interior. Este é um dos aspectos que torna este percurso um roteiro cultural de excelência.

Bicicletas em repousoDurante a tarde o panorama alterou-se radicalmente. O percurso continuava a ser muito plano e a paisagem não variava muito. Porém, surgiu um novo interveniente: o vento. A partir do meio-dia começou a sentir-se uma brisa que foi ganhando força ao longo da tarde. A partir de Sahagún, a intensidade do vento aumentou progressivamente, tornando uma etapa que estava a ser agradável num verdadeiro tormento. A meio da tarde os ventos eram já muito fortes e sopravam quase sempre lateralmente e por vezes frontalmente. Dado que já tínhamos mais de 100 kms nas pernas, o cansaço começou a manifestar-se e o optimismo que se fazia sentir de manhã já eram apenas uma recordação. A intensidade e direcção do vento dificultavam muito a nossa tarefa, chegando ao ponto de termos de pedalar nas descidas, senão o vento não nos deixava avançar. Com estas condições, o ritmo diminuiu bastante, contrarioamente ao cansaço. Os últimos quilómetros, na aproximação a Leon, foram verdadeiramente penosos. Quando por fim chegámos a León, completamente esgotados, ainda tivemos de enfrentar dificuldades em encontrar alojamento. Valeu-nos a boa vontade e grande disponibilidade das Irmãs do Albergue de Castrajales. Era muito difícil encontrar dormida na cidade já que, devido às comemorações da Semana Santa, a cidade estava repleta de turistas. Ainda presenciámos uma das típicas procissões leonesas com as suas confrarias, mas o cansaço que sentíamos e a necessidade de descanso para enfrentar as próximas etapas não nos permitiram uma visita mais demorada a esta interessante e importante cidade.

Caminho Francês de Santiago – Dia 0: Burgos – Castrojeriz

Chegada a BurgosDepois de uma longa viagem em camião, desde Cervães (Vila Verde) até Burgos, estávamos prontos para iniciar a nossa longa pedalada. Tínhamos planeado começar o percurso em Logronho mas, devido a alguns atrasos no carregamento do camião, acabámos por começá-la em Burgos. Em boa hora assim decidímos! O troço entre Logronho e Burgos era muito duro, com muitos desníveis e com uma extensão considerável. A chegada a Burgos aconteceu por volta das cinco da tarde. O Sr. Macedo parou o camião nos arredores da cidade e, depois de descarregar e montar as bicicletas, dirigimo-nos ao centro da cidade para procurar o Albergue local e obter mais algumas informações sobre o Caminho.

Catedral de BurgosAo passar pelo centro de Burgos, tivémos a oportunidade de admirar a sua enorme e belíssima Catedral gótica, dedicada a Nossa Senhora. Depois de percorrer o centro da cidade e apreciar alguns dos seus monumentos, fomos ter ao Albergue de Peregrinos. Tinhamos planeado fazer alguns quilómetros nesse dia, apesar de já ser um pouco tarde. Falámos com os voluntários que trabalhavam no albergue e eles infromaram-nos que o tempo não estava muito estável, mas que não deveríamos ter grandes problemas em chegar a Castrojeriz. Assim, usámos o albergue para trocar de roupa, vestindo o "fato de trabalho" e começámos de imediato a percorrer "El Camino".

CastrojerizA pequena viagem desse dia levou-nos até Castrojeriz, uma pequena localidade a pouco mais de 40 kms de Burgos. Os caminhos que percorremos nesse dia eram maioritariamente em terra ou gravilha, com passagens esporádicas pelo interior de algumas aldeias de cariz marcadamente rural. Durante este trajecto passámos por alguns locais interessantes, como as Ruínas do Convento de San Anton ou a Igreja de Nossa Senhora de Manzano. Como chegámos a Castrojeriz um pouco tarde (cerca das 20h), já não foi possível ver com atenção tudo o que esta agradável vila tinha para nos mostrar. Apesar da sua pequena dimensão, tinha muitos monumentos interessantes, destacando-se entre eles o Castelo e várias igrejas. Depois de devidamente instalados no Albergue Municipal, provámos novos sabores num restaurante local e fomos dormir bem cedo porque o dia seguinte prometia uma longa jornada.

Eratóstenes, Colombo e Magalhães

Eratostenes_1.jpgEratóstenes de Cirene (276 a.C. – 194 a.C.) foi um dos maiores sábios gregos. Entre as suas descobertas destacam-se o Crivo de Eratóstenes (processo para descobrir números primos) e o cálculo do perímetro da Terra. No séc.II a.C., grande parte do mundo ainda era desconhecido pela civilização grega, que era uma das mais avançadas da época. Assim, apenas a Europa, a Ásia e a África eram conhecidas (e mesmo estas com algumas falhas). Mesmo assim, Eratóstenes utilizou um processo engenhoso, envolvendo a sombra provocada pelo Sol em diferentes locais, e conseguiu calcular, com um rigor notável, o perímetro terrestre. Convém ainda referir que quase todos os comtemporâneos de Eratóstenes pensavam que a superfície da Terra era plana. Ele conseguiu inferir a esfericidade terrestre e foi provavelmente o primeiro a determinar o seu perímetro.

Colombo.jpgOs cálculos de Eratóstenes indicavam que o perímetro terrestre devia rondar os 40000 kms e o diâmetro ao nível do Equador mediria cerca de 12800 kms. Muito mais tarde, já no séc.XV, alguns estudiosos espanhois voltaram a esta questão e fizeram novos cálculos. Os seus resultados foram bastante diferentes daqueles obtidos pelo sábio grego. Estimaram o perímetro terrestre em cerca de 29000 kms. Nessa época, os impérios espanhol e português procuravam o domínio dos mares e das rotas comerciais entre o Oriente e a Europa. Baseado nos cálculos mais recentes, Colombo concluiu que a viagem para a Ásia seria mais curta se fosse feita para Ocidente. Para grande sorte de Cristovão Colombo, um erro grosseiro levou-o a uma enorme descoberta. Assim, a descoberta da América deveu-se essencialmente a erros nos cálculos por parte dos cartógrafos espanhois. Se por acaso a América não existisse, o mais provável era que Colombo não conseguisse chegar à Ásia e nunca mais ninguém teria ouvido falar nele.

PlanisferioEm 1522, o navegador português Fernão de Magalhães foi o primeiro a efectuar a volta ao mundo por via marítima. Apesar de não ter cocluído a expedição, já que foi morto nas Filipinas, o barco que comandava conseguiu terminar a viagem de circum-navegação. No final da viagem, ficou provado que os cálculos de Eratóstenes eram realmente muito fidedignos, sendo os valores que ele estimou muito aproximados com os que foram então verificados.

Chet Baker

Chet BakerNascido em 1929, em Yale (Oklahoma), Chesney Henry Baker Jr., viria a tornar-se num dos maiores símbolos do jazz. Na década de 50, Chet Baker integrou um dos melhores grupos da época: o Gerry Mulligan Quartet. A sua forma de tocar trompete inseria-se perfeitamente num novo movimento jazzístico que acabava de surgir: o cool jazz. As suas interpretações eram caracterizadas pelo som suave e límpido, sem vibrato ou outros quaisquer efeitos. Além de trompetista, Chet também era vocalista e a sua forma de cantar era semelhante à forma de tocar trompete. Preferia dar ênfase à letra e expressão aos sentimentos do que apostar em malabarismos vocais. Nesta altura, era o elemento mais proeminente do cool jazz na Costa Oeste, fazendo frente a Miles Davis, o criador deste novo estilo, que "reinava" na Costa Este.

Chet BakerA sua crescente fama e o seu aspecto de estrela de cinema fizeram dele um dos ícones sociais e culturias da época. Apesar da carreira de sucesso que ia construindo, a vida particular de Chet era caótica. As suas relações amorosas eram problemáticas e pouco duradouras, ao contrário da sua ligação aos estupefacientes. Chet era viciado em heroína, facto que o levou várias vezes à prisão. Numa dessas detenções, em resultado de confrontos físicos, viria a perder os dentes da frente. Este acidente fez com que tivesse de passar por uma nova fase de aprendizagem, para tocar trompete usando dentadura.

Chet Baker
Na música de Chet, destaca-se o tema "My Funny Valentine", cujas interpretações o lançaram para a ribalta e que ele foi modificando ao longo dos tempos. Era a sua música predilecta e interpretou-a muitas vezes e de muitas formas. Este foi apenas o tema mais destacado de uma vastíssima produção musical. Chet gravou mais de 100 álbuns, chegando a lançar cinco, ou até mais, em alguns anos. Na fase final da sua carreira, Chet Baker mudou-se para a Europa e mudou também para o fliscorne, em detrimento do trompete. Segundo muitos críticos, esta foi a melhor fase musical do artista. O timbre mais doce do fliscorne realçava ainda mais a sua forma característica de tocar. Em 1988, viria a falecer, em Amsterdão, após uma queda da varanda do hotel onde se encontrava alojado. Apesar do seu desaparecimento trágico e da sua vida desregrada, a música de Chet Baker relaxa o ouvinte e permite apreciar a beleza da simplicidade.

Caminho Francês de Santiago

O merecido descanso da guerreiraQuase um ano depois de ter feito o Caminho Português de Santiago, realizámos uma nova aventura por rotas jacobeias. Depois de uma preparação baseada em algumas horas de ginásio e uns passeios domingueiros de bicicleta, eu e o Nélson partimos para mais uma dura e longa viagem pelo Norte de Espanha. Desta vez escolhemos o Caminho Francês, que é também o mais célebre e mais frequentado. O planeamento antecipado deu-nos uma ideia das dificuldades por que passaríamos e também dos motivos de interesse de várias localidades no Caminho.

Caminho de SantiagoA aventura começou na Segunda-feira, dia 2 de Abril, com uma viagem de camião. Com a simpatia e boa vontade do Sr. Macedo e a colaboração do Serafim Costa, arranjámos uma forma muito eficaz e prática de realizar a viagem de ida. No entanto, o camião que nos levaria já estava muito cheio, o que nos obrigou a desmontar as bicicletas e acomodá-las em espaços muito exíguos. Depois de várias horas de viagem e de uma noite dormida no camião que seguia para Logronho, optámos por ficar em Burgos. Assim, a meio da tarde de Terça-feira, desembarcámos nos arredores de Burgos, onde iniciámos a grande aventura.

El CaminoNos dias seguintes, as dificuldades sucederam-se e foram sendo ultrapassadas, com maior ou menor custo. O cansaço também se ia acumulando com o decorrer dos quilómetros, mas a vontade de chegar e a proximidade de Santiago geravam forças e ânimo para completar a jornada. Na viagem em duas rodas entre Burgos e Santiago fomos confrontados com todo o tipo de relevo, desde as enormes planícies de Castela e Leão às grandes montanhas galegas, e ainda de variações bruscas no clima, onde tivémos chuva intensa, sol abrasador, ventos fortes e até queda de neve.

Chegada a SantiagoQuando se chega a Santiago já se sente alguma nostalgia e saudade das aventuras e peripécias do Caminho. O ambiente que se vive e que se partilha torna este percurso especial. Os peregrinos apresentam uma predisposição natural para o convívio saudável e para a entreajuda. "El Camino" cria um ambiente propício para a criação de novas amizades e também para o crescimento pessoal, pelo tipo de vivências que permite experimentar. Apesar da dureza e das dificuldades que tivémos de ultrapassar, já existem projectos para novos empreendimentos semelhantes a curto ou médio prazo. A todos aqueles que se envolvam numa aventura como esta: "Buen Camino".